De poeta e louco…todos temos um pouco
Publicado por Liliana Fernandes a 5 Junho 2007 em Artigos recentes.Ontem tomou-se conhecimento do elevado número de doentes mentais: 500 mil. Um número redondo, mas assustador. Sobretudo, quando também ficamos a saber que só uma ínfima percentagem tem acesso aos serviços públicos especializados.
Nunca me iludi quanto à enormidade de pessoas perturbadas que andam pelo país fora. Reconheço, no entanto, que jamais me passou pela ideia que fossem tantos. Pelo menos, o número revelado é o que corresponde àqueles com diagnóstico definido. Ninguém (ou quase) sabe o que se passa por entre ruas e vielas, em localidades recônditas com as pessoas que padecem deste problema. No interior, sobretudo, os doentes mentais são tidos e tratados como seres inferiores e, muitas vezes, criados como animais. Não foi há muito tempo, que o programa “Fátima”, da SIC, denunciou o caso de um homem com mais de 30 anos, que passava os dias sozinho, sem qualquer assistência, sentado numa cadeira, sem roupa e alimentando-se das próprias fezes. A somar, o pai maltratava-o. Vivia num sítio que nem como sítio deve ser chamado. Estava desterrado algures num sítio que nem a um galinheiro se assemelha. Este caso, um entre muitos anónimos, teve fim há uns meses, mas perdurou durante anos. Pior: com o conhecimento da GNR e Segurança Social locais. O programa supracitado conseguiu denunciar a situação, mostrou, em directo, o estado deplorável em que aquele homem vivia e, pouco depois, soube que uma instituição abriu os braços para cuidar do rosto de muitos outros casos. Adiante, o programa “Fátima” visitou-o na dita instituição e nem queria acreditar no que testemunhava: “António” já emitia sons, expressava-se como podia…para não falar na aparência. Ganhou uma nova vida. Estava feliz e cuidado.
Bem, “publicidade” à parte…Indigna-me saber, ainda, que ao que tudo indica, algumas das unidades hospitalares que se dedicam ao tratamento destes doentes poderão cessar. Na lista, está apontado o nome do incontornável Miguel Bombarda. Este é sinónimo para a própria doença. Para muita gente, maioritariamente os lisboetas, quem se deslocava a esta entidade ou ao Júlio de Matos era porque não regulava bem da cabeça. O objectivo, diz-se, é compactar este género de serviços numa única entidade hospitalar por cidade, incluindo Coimbra e Porto. Para os chamados “grandes hospitais” vão apenas aqueles considerados como doentes perigosos, sendo os outros assistidos em unidades de saúde mental comunitárias.
O que quererá isto dizer? Significa que passaremos a ver ainda mais doentes mentais a deambularem por uma qualquer cidade? A mendigar por atenção e dinheiro? Como princípio destas propostas, diz quem sabe, está o objectivo de um atendimento melhor e, como não podia deixar de ser, a redução de custos da manutenção dos grandes hospitais.
Sob pena de cair num facilitismo barato, não resisto em indagar: entre o novo aeroporto, por exemplo, e os doentes de qualquer hospital ou as maternidades, qual assume maior importância? Qual deveria estar na lista de prioridades nacionais? Eu voto nas duas últimas sugestões. O problema é que o Governo de José Sócrates nos tenta rotular e convencer de que somos parvos. Para quem não sabe, o termo “parvo” vem do latim e significa pequeno. Neste âmbito, eu incluo-me. Quanto ao sermos parvos no sentido que o Governo socialista atribui…é com gosto que digo: parvos, pode até ser, mas malucos… ainda não estamos!
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