Estou bem, obrigada!

Ultimamente tenho sido bombardeada com uma questão que, confesso, já me causa mal-estar: já tens namorado? Primeiro: é algo que só a mim diz respeito e, eventualmente, à pessoa em questão se existir; segundo: é obrigatório ter alguém? As pessoas pautam a sua vida pelo que é socialmente aceitável. Quando não se segue a mesma “cartilha”, logo somos apontados com um sonoro “tens um feitio muito complicado”; “não entendo por que pensas assim”; ou “és diferente!”. E isso tem de ser interpretado como mau, porquê? Não é verdade: posso, é claro, pensar e agir de forma diferente do senso comum, respeitando apenas as minhas prioridades de e na vida. De resto, é um direito que me assiste. Acontece que as minhas escolhas podem não ser o espelho dos demais. Tenho personalidade forte, sim! (há quem a ancore a uma eventual arrogância), não abdico dessa característica que ora causa dissabor; ora admiração (consoante as pessoas), e de tal sou rotulada com justa causa. Reservo-me o direito de fazer as minhas opções de acordo com o que quero, penso e sinto, alheia aos pensamentos dos desocupados que mais não fazem do que (tentar) viver a vida dos outros para esquecerem as suas cenas comezinhas, cunhando um total desinteresse ao seu dia-a-dia. E depois querem que o país evolua!

Se se acaba o curso a pergunta mais ouvida é “quando arranjas trabalho?”; se se namora ouvimos “quando é que casas?”; depois “quando é que engravidas?”; posteriormente “quando vem o segundo?”. Quando estes se casam ouvimos “quando é que és avó?”. Será que só se pode vir ao mundo para casar e ter filhos?

A confirmar-se…então o que ando cá a fazer? Não tenciono casar nem tão-pouco ser mãe. Seria, acima de tudo, um tremendo acto de egoísmo. Não basta termos conforto económico para tal se não tivermos toda a estrutura de vida e psicológica devidamente adaptadas. Poderia desenvolver esta minha convicção, mas não me apetece dissertar a propósito, por agora. Quanto ao casamento, é preciso encontrar a “tal” pessoa que muitos dizem conhecer, que existe e até encontraram para que me fizesse perder o norte ao ponto de me levar ao altar. Por razões óbvidas, não vislumbro que tal se concretize. No entanto, “nunca se deve dizer nunca” ou “desta água não beberei”. Outros há que já encontraram a “tal” pessoa e a mais não podem aspirar do que a boas recordações. A somar, sou muito ciosa do meu espaço e a partilha do mesmo com alguém que iria directamente interferir nele…requeria um processo de adaptação e aprendizagem muito grande, em conjunto. Por mais que amasse essa pessoa, reconheço que tenho um feitio “especial” e cada qual tem os seus hábitos. O meu espaço - e não me refiro ao físico - teria de ser respeitado, como de resto se impera o contrário. Nada que o amor não supere, suspiram os apaixonados. Que o sopro do amor continue a cruzar os vossos destinos. Quisera…

Aliás, o intuito deste post nem é esse. Funciona, simplesmente, como um desabafo à pergunta que mais me tem sido feita desde que a minha relação terminou. Tudo na vida tem um começo, meio e fim…e aquela durou o que tinha de durar. Até nós, pessoas, chegamos ao fim da linha! O facto de ter terminado uma relação não impõe que tenha de encontrar outra pessoa, pelo menos de imediato. Agora pergunto-vos: aparento um ar triste que vos leve a pensar que a solução passaria por arranjar um namorado? Para se estar bem na vida é forçoso que tal se deva à presença de alguém especial nos nossos dias?

Não compreendo por que tal aspecto assume tanta relevância, desafiando os mais acicatados a tentarem transpor uma barreira instransponível em mim: falar e comentar a minha vida e ser tema de conversa em boca de “matildes”. Os que me conhecem sabem que sou reservada no que concerne à minha vida, protegendo acima de tudo não só a mim, mas essencialmente aqueles que constituem a esfera privada da mesma: sejam familiares, amigos, namorado ou conhecidos.  Aliás, quem faz a pergunta, logo se apressa a dizer “desculpa, sei que não gostas de falar da tua vida”. Nesse caso, recordo a premissa do gostoecontragostoA nossa liberdade termina quando começa a dos outros“. Os verdadeiros amigos apenas devem preocupar-se se estou bem, independentemente de atribuir a alguém essa responsabilidade.

O meu momento vai chegar! Simplesmente porque mereço. A pessoa estará lá. Desculpem a falta de modéstia. Quanto ao meu olhar, que alguns têm apelidado de triste, importa referir que também eu tenho os meus dias…menos bons. Sou transparente e não consigo fingir o que não sinto: se o meu sorriso anda mais sumido…melhores dias virão. Todavia, com ou sem namorado, estou bem porque, a gosto, outras coisas há bem mais relevantes na vida que nos arrancam um sorriso de regozijo. Nem que seja…por estarmos vivos!


1 Response to “Estou bem, obrigada!”

  1. 1 Sérgio Rebelo

    As pessoas não o fazem por mal e, embora não tenhamos de viver para casar e ter filhos é natural que a Natureza nos leve a ter filhos.
    É a forma de como espécie continuarmos a existir, por isso seja qual for a estrutura das sociedades, a procriação será sempre um objectivo forte.

    Nesta nossa, faz parte dos padrões que para chegar lá se passa por casamento, antes disso por namorar e algures pelo caminho a estabilidade financeira.

    Eu acabei de ter a minha primeira filha e é verdade que estou já a pensar no próximo/a :) Saltei foi o passo do casamento e a estabilidade financeira já não é a mesma de outras gerações.

    Quanto ao olhar triste, apesar de te ter visto apenas uma vez por alguns minutos, não recordei uns olhos tristes, apenas bonitos.

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