Este mês algumas pessoas especiais fazem anos. Coloca-se a incontornável questão: o que oferecer? Ou até: por que oferecer? A algumas, porque sim. Não me apetece dissertar a propósito. “Outras” há a quem gostava muito de oferecer algo, mas por motivos alheios à minha vontade, não vai ser possível. Não, não se trata do mais recorrente subterfúgio “não tenho dinheiro”.

Mas quando penso em oferecer o que quer seja, sou assaltada involuntariamente pelos meus próprios gostos: livros. Solucionado o drama “do que dar”, eis que surge outra dúvida: que livro? Tenho sempre a ideia de que por melhor que conheça a pessoa, nunca sei o suficiente para acertar nos seus gostos. Por isso, mando o receio para trás das costas; deixo-o à porta da livraria e escolho de acordo com aquilo que eu própria gosto. Egoísta! Dirão alguns. A minha explicação, sem passar pela necessidade de justificação é simples: não opto pelos chamados best sellers, pelas novidades daquela semana ou pelos títulos mais…sugestivos. Na minha opinião, a maioria é leitura de “chá das cinco”. O que para uns é fácil…para mim nem tanto. Não percebo que se escolha um livro porque sim, porque está na moda. Para mim constitui uma tremenda dificuldade (perceber isto e entender que assim seja).

Então, o que fazer? Páro no tempo: viajo nos livros que tenho, nas melhores histórias e/ou estórias e personagens e tento perceber qual se enquadra melhor no perfil do aniversariante. Mas sabem o que é mais estranho no meio de tudo isto?- é eu perceber a quantidade de livros que tenho e pensar: se fosse hoje apaixonar-me-ia com a mesma intensidade por cada um deles?! De certo, um livro que me arrebatou aos 15, que apelidei de melhor livro seguido de um outro melhor; hoje não teria a mesma entrega. O último é sempre melhor ao seguinte. De facto, recordo-me dos suspiros que alguns livros me arrancaram, nomeadamente da autoria de Malcolm Lowry (Debaixo do Vulcão) ou Golpe de Misericórdia de Marguerite Yourcenar…tantos outros, ainda! Ocorre-me, agora, o incontornável William Faulkner que, além de ser considerado uma referência na literatura norte-americana do século XX, foi ainda nomeado prémio nobel da literatura em 1949 (se não me falham os conhecimentos e atingida por “pressite aguda” deixo cair por terra a tentativa de confirmar). Tanto quanto sei arrecadou ainda dois prémios, um em 1951 e 1955, National Book Awards e o prémio Pulitzer, respectivamente. Este autor é acusado de seguir a técnica introduzida por James Joyce, Virgina Wolf, Thomas Mann e Marcel Proust, intitulada fluxo de consciência, por transcrever um monólogo de um ou mais personagens. Detentor de uma vasta obra, desde romances (distingo A Fable) a contos ou obras poéticas, tenho de realçar que gosto da forma como “relatou” a decadência do sul dos EUA, interiorizando-a nas personagens, que viviam (na sua maioria) em total desespero no condado imaginário de Yoknapatawpha.

Quando regresso dos meus pensamentos e assento os pés, percebo que as minhas ideias, fixações mudam ao compasso que o tempo avança. Outras não! No entanto, percebo que o meu coração é demasiado pequeno para abrigar tantos livros que outrora pariram as melhores das sensações. Torna-se imperativo filtrar e, acima de tudo, esquecer alguns que foram relevantes num determinado tempo, período de vida. Todavia, assumem a sua quota parte de importância, pois ao seu jeito contribuíram para a pessoa que sou hoje e para a minha bagagem cultural.

O que quero dizer é que os livros assumem o seu papel em concordância com o que somos num determinado momento da nossa vida. E oferecer a alguém um certo livro que estava “esquecido” no fundo do meu baú de lembranças é dar-me a conhecer. Imagino-me a dizer: «lê isto porque… Eu li quando tinha a tua idade e achei que… Ou já li e…» Para já, estou a condicionar, à partida, a interpretação que a pessoa vai retirar da leitura. Fica sempre com a sugestão. Umas vezes acertamos na escolha; outras somos menos felizes na opção.

Mesmo dando-me a conhecer através dos livros que leio ou que, eventualmente, ofereço não me arrependo. Num dia qualquer, a pessoa vai lembrar-se e dizer que gostou ou “contra-gostou”, independentemente do que eu lhe possa ter dito.


3 Responses to “Ler qualquer coisa…ou não ler?”

  1. 1 RVN

    Estou de acordo. Somos o que lemos. Mas se investimos tempo e coração a pensar como agradar os outros somos mais e melhor: valemos a pena.

    Bem bom.

    rvn

  1. 1 Modus vivendi
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