Não sei se é inédito, mas não tenho memória de alguma vez, “veteranos” serem condenados por praxe. Foi o que aconteceu aos sete arguidos acusados de ofensa à integridade física a uma aluna, na altura caloira, da Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS). Mas esta não é a única surpresa neste caso. O que me causou igual espanto foi a posição de alguns docentes, incluindo um ex-director da instituição, que consideraram que colocar excrementos na cara dos alunos seria “normal”, enaltecendo o “papel” e a “tradição” da praxe! São estes os professores que temos nas universidades a formar pessoas? Se calhar, neste caso, e tendo em conta o estabelecimento de ensino, admite-se que assim pensem porque, provavelmente, lidam com animais!

No meu ponto de vista, este género de afirmações por parte dos dirigentes não deveria passar incólume, apurando responsabilidades. Pergunto: e se isto tivesse acontecido a um filho ou filha de algum dos “sábios” que proferiu tal absurdo? Ainda assim, a decisão do tribunal deveria, pelo menos, servir de reflexão a quem dirige estas entidades, que se dão ao ridículo de incluir as comissões de praxe nas cerimónias de acolhimento aos caloiros. Também a postura assumida por estes, me aflige. A passividade com que aceitam que alguém, só porque está uns anos à frente (por força da idade), lhe obrigue a fazer figuras, cujo objectivo é tudo menos a inclusão e o conhecimento entre todos! Lamento, mas não é. Por isso, eu própria, no meu tempo de estudante, declarei-me “anti-praxe” por entender que para conhecer quem quer que fosse não precisava ser exposta ao ridículo e ferir a minha dignidade humana. Porque deveria admitir que alguém, que não conheço de parte alguma, me chamasse besta só porque era mais nova? Recusei e nunca tive medo dos rótulos que daí pudessem advir: como “betinha”, “cortes” ou “não pertencer” ao grupo. Nunca actuei por psicologia de grupo; antes, como costumo dizer, integro as minorias. Como diz Fernanda Câncio, «(…) o universo das praxes surge como uma absurda fórmula de estratificação e imposição de poder discricionário, na qual o deslizar da brincadeira para o crime é quase uma consequência lógica». Antes de o movimento das praxes ganhar maior expressão, as pessoas não se conheciam? Não se integravam? Houve quem me dissesse: “se não queres ser praxada, também não podes praxar quando fores veterana!” Fazem disto quase um culto, uma religião. As faculdades param, as aulas são canceladas só para aderir às praxes. Como é possível? E como é que uma faculdade admite que assim seja? Ainda por cima, há faculdades que exigem que o caloiro assine um papel, declarando-se “anti-praxe”, como se estivéssemos a falar de uma prática institucional! Em suma, penso que as faculdades têm um dever moral e obrigatório de esclarecer os recém-chegados que têm todo o direito de recusar serem praxados e, caso se considerem vítimas de um qualquer abuso ou acto mais exagerado, devem receber por parte da escola todo o apoio e não ser discriminado, como parece ter sido o que aconteceu à queixosa de Santarém, que se viu obrigada a mudar não só de curso, como de cidade. Antes de mais, a escola deve preocupar-se por cumprir o que lhe está confinado: lugar de cultura e civilização.


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