Palavra “Lisboa” substituída por “Reformador”
Publicado por Liliana Fernandes a 11 Janeiro 2008 em Artigos recentes.O jornal Diário Económico (DE) dá notícia de que Irlanda - o único país a referendar o novo Tratado Europeu -vai adoptar “Tratado Reformador”, abolindo “Tratado Lisboa”. Aquele vai ser o nome utilizado na campanha pelo referendo europeu. A justificação é que «’Lisboa’ não tem valor “explicativo” e pode “confundir” as pessoas que já ouvem falar de “reformador” desde o início de 2007». O porta-voz daquele governo apresentou um outro argumento: «antes de ser assinado, o Tratado já era conhecido pelas pessoas como Tratado Reformador». Assim, o governo irlandês está confiante de que ao usar o termo “Reformador”, na explicação do conteúdo do Tratado durante a campanha, captará melhor a essência daquele, que «é de revitalizar e tornar a União Europeia mais transparente». Adiantou, ainda, que nada se trata de pejorativo quanto ao nosso país, mas é apenas uma medida para que os irlandeses não se confundam. Imagine-se: terão de ter capacidade para perceber o que é o Tratado, qual a sua importância e conteúdo; mas não conseguirão perceber o porquê de “Tratado de Lisboa”! Dublin parece partilhar da opinião de Irlanda, dizendo que cada vez faz menos sentido manter o nome da cidade onde os Tratados são assinados.
Sempre que há uma ideia, seja de que natureza for, existe sempre pontos de divergência, pois cada pessoa tem uma opinião. É o caso de Declan Ganley, que faz campanha pelo “não”, que acusa o governo irlandês de querer ludibriar o eleitorado com um título positivo, dando «um enviesamento falacioso à campanha: Lisboa é o nome do Tratado, que está a ser usado em todos os países. É assim que o vamos chamar», refere o presidente do “think tank” Libertas.
Conclui-se, portanto, que para Irlanda “Lisboa” serviu apenas de palco à assinatura do Tratado, pois toda a campanha, incluindo as questões direccionadas para os irlandeses referem “Tratado Reformador”. Antes, ter-se-á sempre referido a Tratado de Nice. Boa notícia, no meio de tudo isto, foi a decisão ao nível editorial da imprensa que usará ambas as designações “Tratado de Lisboa, anteriormente conhecido como Tratado Reformador”. Feliz com esta posição fica, de certo, Portugal depois do esforço de Sócrates para «colocar a capital portuguesa neste virar de página da história europeia», que tantas vezes afirmou ser um motivo de “honra”.
Sempre admirei o sentido prático dos irlandeses, e esta decisão é apenas mais uma demonstração disso mesmo. A patética ostentação de Sócrates do nome do tratado vai acabar por lhe sair furada. Não percebo o porquê de tanto folclore em termos de um nome. A verdade é que continuamos a ser um país que gosta mais de parecer do que ser, e depois admiramo-nos de ficarmos na cauda em tudo o que interessa em termos de avaliações internacionais.