Quem é o animal, aqui?
Publicado por Liliana Fernandes a 31 Outubro 2007 em Artigos recentes, Está bonito e leva jeito.Se era um artista bestial, depressa se tornou numa besta, alvo de críticas tão bárbaras quanto o acto a que deu autoria. A semana passada ouvi vários “zunzuns” sobre um fulano, artista, que teria recorrido a um cão para… Por um ou outro motivo não cheguei a ouvir o final das frases. A resposta chegou-me mais tarde, por e-mail. Este pediam para que se assinasse uma petição, cujo objectivo era impedir que um artista fosse premiado por uma “instalação”. Juntei as palavras que ouvi aqui e acolá e perguntei a várias pessoas se era sobre aquilo que comentavam fervorosamente. Acenaram “sim” com a cabeça.
Atenta, abri as fotografias que seguiam em anexo e logo percebi do que se tratava: aquela criatura, que se diz artista, foi buscar um cão à rua. Abandonado, com fome e com sede. Remetida à esperança de que nada do que ouvira faria sentido, pensei tratar-se de um acto generoso. Enganei-me. Na realidade, aquele homem foi buscar o animal para colocar na sua galeria, amarrado a um canto para que qualquer pessoa que por lá andasse o visse a morrer de fome e sede. Sem mais nem porquê: gratuitamente. Como classificar isto?
Confesso que não reparei, cega pela revolta que me assaltou. Mas hoje, ao ler a crónica O país e o mundo de Rodrigo Guedes de Carvalho na revista TV Mais, soube de mais um pormenor incluído nas imagens: «havia uma qualquer frase escrita na parede, perto do cão moribundo, uma frase qualquer que nem sequer lembro, mas recordo que estava formada com…comida de cão colada à parede». No texto do jornalista consta, ainda, a justificação da besta: «diz o artista que foi uma forma de desmascarar a hipocrisia». Se isto não é crueldade, barbárie, nu de sentido…então é o quê? O que é isto, afinal? O Homem é dotado de livre-arbítrio, responsabilizando-se pelos seus actos e tendo a possibilidade de optar: o que daí advém é responsabilidade sua; foi ele que escolheu sem interferência alheia. O cão, não! Impuseram-no; arrastaram-no; obrigaram-no. Uns dirão (como de resto ouvi): “o cão ia morrer de qualquer maneira! Qual é o problema?”. Mais inacreditável ainda. E eu pergunto: quem profere tal disparate vai morrer qualquer dia, porque não dar um tiro na cabeça? Menos um a jogar frases inteligentes. Atrasados mentais não faltam por aí; atrasados que não fazem uso da faculdade intrínseca ao ser humano, cultivando actos irracionais, selváticos por onde passam.
Os artistas são apelidados, na sua maioria, como sendo pessoas estranhas, esquisitas, diferentes, excêntricas com atitudes e formas de agir distintas. Ainda que assim seja, algo têm em comum com todas as pessoas que não são artistas: dispõem da capacidade de raciocínio; perceber o que é certo e errado e medir as consequências dos actos. Esta “particularidade” é o que nos diferencia dos verdadeiros animais. Devia fazer “a” diferença, mas… animal uma vez; animal para sempre!
O cão não escolheu estar naquele local e ser o centro das atenções pelos piores motivos. Os olhos dos “visitantes” pareciam, creio, autênticos holofotes apontados para o cão. Este, ao contrário do Homem, não tem a capacidade de resposta e é indefeso. De certo, ainda foi persuadido com comida ou água. O que, não sendo confirmado e não passando de pura especulação (minha), aguça, à mesma, a minha ira. Bem como me revolta alguém abrir a boca e defender aquele bárbaro de duas patas, que mais não deve ser do que um calhau com dois olhos. De certo, os mesmos acéfalos que erguem a imaginação artística ou o “na arte tudo é admissível” como justificativa para aquele ataque vândalo. Como é possível defender aquilo? Com que argumentos? Porque não colocar o “artista” na sua própria galeria, amarrado a um canto para que todos vissem como se nasce e morre estúpido?
Não fui a tempo, mas assinei a petição no mesmo minuto. Não fazê-lo seria consentir e estar conivente com uma situação aberrante. Não impedi a morte do cão, mas, como diz Rodrigo Guedes de Carvalho, «mostrámos ao artista o que pensamos dele».
O que me preocupa é: aquele homem vai ser punido pelo que fez? Não há quem dê voz aos direitos dos animais, fazendo-os passar do papel? De facto, há países em que os direitos não são exercidos porque também aqueles não são civilizados. Em qualquer país, “direito” significa “direito”. Pode ser noutro idioma, mas o objectivo é o mesmo, o significado é invariável.
E a gosto, tenho o direito de crucificar aquele “artista”…
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