Quem falou em corrupção na política?
Publicado por Liliana Fernandes a 28 Março 2007 em Artigos recentes.Ontem fiquei…admirada quando li no jornal Diário de Notícias de ontem que «não há um único preso por corrupção na política». Os únicos detidos por corrupção fazem um total de oito pessoas, mas na área da imigração ilegal.
É lícito, então, pensarmos que a classe política nacional é, de todo, idónea e merece a nossa total confiança? De facto, a suspeita da existência de corrupção na política é imensa, os julgamentos raros, mas existentes. No entanto, presos, de facto, o número é nulo. O último caso conhecido de um político preso tem o nome de Abílio Curto, do partido PS, e o ex-presidente da Câmara Municipal da Guarda, que está em liberdade condicional desde o final do ano passado.
Terei motivos para ficar feliz com a boa nova ou alarmada por saber que é um crime de difícil prova? Na mesma notícia, Maria José Morgado adiantou «estamos perante um inimigo sem rosto. Não sendo logo identificável, os seus métodos também não o são. Raramente (quase nunca) há cartas ou documentos escritos a falar de pagamentos a troco de qualquer coisa. Tudo se passa num contexto recatado. Por isso, as escutas telefónicas são preciosas, como meio de obtenção de prova, assim como os agentes infiltrados».
Portugal está mal classificado, no que concerne à repressão da corrupção. A magistrada vê a investigação criminal, como um dos principais entraves. Para a “mulher de ferro”, os “nódulos do sistema penal” assentam em duas extremidades: «numa organização do Ministério Público (MP) com maus métodos de trabalho e direcção, desajustada às exigências da investigação do crime económico-financeiro» e numa «estratégia de política criminal inconsequentem nebulosa, por vezes paradoxal».
Para Luís Barbosa, inspector da Polícia Judiciária, o cerne da questão vai mais além. Na mesma notícia, é possível ler-se «a importância do cumprimento da estatística dos processos pendentes tem que ser posta definitivamente de lado, dando disponibilidade completa para atacar, com a máxima concentração e meios, as investigações sobre factos que estão a ocorrer ou que ainda não ocorreram». O mesmo inspector defende, ainda, que é imperativa a especialização dos magistrados do MP, levantando uma questão pertinente, «será que se pode ser um bom investigador de homicídios ou de tráfico de droga e ser, ao mesmo tempo, um investigador especializado no combate à corrupção?».
E eu levanto outra: será que se pode ser isso tudo ao mesmo tempo e obter bons resultados em todas as áreas ou irá contribuir para o crescimento de casos em segredo de justiça que não vêem solução à vista? Ou será que pretende contribuir para a estatística dos típicos casos que não dão em nada porque, entretanto e com o passar do tempo, prescrevem? Se calhar não temos por que duvidar dos nossos políticos que, ao que parece, são muito bem comportados. Ao invés, se calhar deveriamos questionar os meios eficazes para combater os possíveis rebeldes que saiam da ordem?
É do gosto de todos saber que estamos em boas mãos?
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