Sócrates e as promessas
Publicado por Liliana Fernandes a 25 Fevereiro 2008 em Artigos recentes.Ainda não tinha tido oportunidade de falar sobre a entrevista que José Sócrates concedeu à SIC. Li “1001″ comentários, houve quem destacasse a maciez das questões, previamente preparadas, sobre temas acordados com o Primeiro-ministro: saúde, educação, economia e política. Apesar do sistemático recurso a “números” durante a entrevista (fazendo parecer uma aula de estatística), gostei de ouvir as explicações de José Sócrates. Achei-o calmo, tranquilo e com verdadeiro empenho em que os eleitores percebam algumas medidas. Todavia, continuo com a mesma opinião: além de ter ganho com maioria absoluta, Sócrates é bafejado por não haver uma verdadeira oposição. A entrevista evidenciou, mais uma vez, que muitas das medidas tomadas por Sócrates são um acumular de maus hábitos anteriores, que “gritavam” por modificações urgentes.
Inesperado ou não, o certo é que o Primeiro-ministro reconheceu ter falhado na promessa de não aumentar os impostos, mas a então situação das finanças públicas, ditou o contrário. E apesar de 2009 ser ano de eleições, José Sócrates considera irresponsável baixar os impostos, alegando que o processo de consolidação das contas públicas nacionais e a crise internacional não permitem garantir que se possa assistir a uma redução do IVA.
Quanto ao sistema educacional, o Primeiro-ministro justifica as actuais medidas indispensáveis para repor a ordem, uma vez que o anterior Executivo deixou a “casa desarrumada”. Segundo os dados apresentados pelo chefe de Governo, nos últimos três anos, em virtude das reformas implementadas, «gastou-se o mesmo dinheiro, aumentou o número de alunos e melhorou o sucesso escolar». Apesar das inúmeras manifestações de desagrado por parte dos docentes relativamente ao sistema de avaliação de professores, José Sócrates mostra-se irredutível: «é mesmo para continuar. Este processo reforçará a justiça e premiará o mérito. Claro que as reformas, com as mudanças das rotinas, provocam sempre alguma reacção. Mas não temos tempo a perder».
Relativamente à promessa de arranjar 150 mil postos de trabalho, o Chefe do Governo garantiu que, se mantendo os indicadores económicos positivos e o ritmo médio de criação de emprego dos últimos três anos, será possível criar até ao final do mandato os tais 150 mil postos de trabalho. Até ao momento, foram criados 94 mil. A par, o Primeiro-ministro mostrou-se igualmente satisfeito pela redução do défice das contas públicas, sobretudo porque quando o seu Executivo assumiu o Governo o país «estava à beira de uma recessão económica», apresentando um défice público muito superior ao permitido pela União Europeia.
E fazendo o papel de advogado do diabo, pergunto: a que preço José Sócrates se congratula com esta redução? Será com o contributo do aumento do IVA, dos cortes na saúde - nomeadamente encerramento de maternidades e SAP - e fecho de inúmeras escolas, no que diz respeito à educação, que continuará a governar Portugal?
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