Um flagelo no feminino

Ontem, o jornal Diário de Notícias (DN) publicou o resultado de um estudo levado a cabo por duas francesas do Instituto de Estudos Demográficos francês, que denuncia «mais de cem milhões de mulheres são vítimas de mutilações sexuais». Um cenário vestido de autêntico terror, sobretudo porque França também contribui para as estatísticas. No entanto, o epicentro desta barbaridade tem maior incidência nos países africanos e Médio Oriente, onde a escassez de meios, ausência de estruturas a diversos níveis são notórias. O que não se entende é como França que se diz um país mais desenvolvido, de primeiro mundo e ainda por cima de cultura ocidental também é um dos protagonistas! A mutilação genital feminina - excisão parcial do clítoris e sutura do orifício vaginal - faz parte da realidade de cem a 140 milhões de mulheres.

Uns dirão: não é barbaridade, é uma questão de cultura. Subscrevo, mas dêem-me o direito de dizer que a minha cultura não compreende um acto desta natureza como, de resto, aquela ou outra cultura não entenderá a minha posição. E não apenas porque sou mulher. Apresentem-me uma justificação minimamente plausível e/ou aceitável. O confronto de culturas existirá sempre, tal como o de gerações. O que não significa que seja mau, por si só. A discussão de ideias é salutar. A religião também é apontada como sendo um dos factores de defesa. O que me suscita algumas dúvidas: se as pessoas são crentes porque não respeitam o que a natureza lhes deu? E se lhes deu, porque não aproveitar? Onde está o errado? Que mal há ou que afronta cultural pode existir por gozar do que é natural? E a ser apenas por uma questão cultural, recordo o caso que remonta há escassos anos: uma menina africana sentia o dia da mutilação a chegar e o pai, que se encontrava em Portugal, fez de tudo para impedir que a filha entrasse para as estatísticas. Vários organismos internacionais foram céleres na intervenção e a opinião pública foi igualmente mobilizada. Aquele pai, daquele país, criado com aquela convicção foi o primeiro a discordar e se não me falha a memória: venceu! O que prova ser possível pensar o contrário, reagir ao culturalmente estabelecido e lutar pelo que se considera correcto, legítimo, natural. Aquele pai disse “não” ao que lhe foi imposto durante anos, virou costas à sua cultura, do seu país, erguendo apenas o bem-estar da filha de tenra idade.

No entanto, a preocupação máxima não se prende com a ocultação ou mesmo impedimento daquelas mulheres sentirem prazer. O que é mais gritante é a falta de condições em que tal mutilação ocorre na maioria dos casos, colocando em risco a vida de quem é obrigada a aceitar os cânones da cultura em que está inserida sem pestanejar. Ainda há quem conheça a mutilação a sangue frio… Muitas morrem enquanto o grito de dor e aflição se esvai à medida que a vida vai dizendo “adeus”. As que sobrevivem encararão sequelas, algumas, irreversíveis: dores, hemorragias, retenção de urina, infecções na infância, relações sexuais que se revelaram um verdadeiro suplício de tão dolorosas que se assumem e até complicações durante o parto. Recorde-se que a mutilação ocorre, maioritariamente, em crianças, que no futuro têm como função contribuir para o desenvolvimento da nação, procriando. Mas como?

Alguém me explica porque estas atitudes terceiro-mundistas só englobam mulheres? Os homens também sentem prazer de diversas formas… Porquê que a mulher ainda é vista, no século XXI, e por algumas culturas, como um ser devoto a sacrifícios e impeditiva de sentir prazer? Vontade? É preferível ouvi-la gemer de dor? Este flagelo ainda faz parte da história do século XXI (por mais quanto tempo?) e o mosaico que o representa são os diversos rostos, cuja cor é a apenas de dor e sofrimento.

As campanhas internacionais para colocar um ponto final nesta violência desmesurada, despropositada sem direito de opção ainda não fizeram o eco necessário. Quantas vidas mais são necessárias ser sacrificadas?

 


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