Uso o teu…queres o meu?

Há uns dias fui surpreendida. Uma amiga vai casar-se e é a excitação em pessoa. Normal para quem diz que encontrou a “cara-metade”. As prioridades que as pessoas estabelecem na vida “assustam-me”. A maioria suspira pelos 18 anos para tirar a carta; eventualmente tira um curso superior e procura trabalho, permanecendo em casa dos pais até não haver amanhã; já namora ou começa nestas andanças; sonha com o casamento e depois com os filhos. Felizmente, nunca me deu para aqui.

Mas voltando ao convite… Fiquei feliz por ver uma pessoa por quem nutro um enorme carinho tão feliz. Todavia, o comentário que veio aliado ao convite arrancou de mim alguma…estranheza. O semblante dela ruborizou quando, de orgulho em punho disse «vou ter o nome do meu marido». Não quis dar um tiro na felicidade que a revestia, mas de imediato perguntei «ele também vai adoptar o teu?». A resposta não tardou: «claro que não. É uma questão de tradição: nós (mulheres, entenda-se) é que pomos os nomes deles!». Fiquei perplexa! Quer dizer: a mulher pode ter um nome gigantesco, mas sempre há espaço para mais uma “carruagem”; ele, por seu turno, pode até ter só dois, mas…é homem! É este o pensamento? Não queria acreditar que alguém ainda mantivesse esta mentalidade.

Encaro e vejo a vida de forma distinta de a maioria das pessoas e até da minha idade. Não concebo por que só uma parte deve adoptar o sobrenome da outra e que tal se suceda em função do sexo! E nem tão-pouco percebo ou aceito por que os homens (muitos) fazem questão que a mulher assuma o seu sobrenome sem que eles equacionem sequer a hipótese contrária! A isto chama-se machismo. Vamos chamar as coisas pelos nomes. Não vamos florear ou refugiarmo-nos em eufemismos.

Não vou assumir a presunção de me auto-classificar. Mas por vezes sinto-me um ser muito estranho dos restantes, do meu núcleo, pois temos ideias e objectivos completamente antagónicos. Talvez a minha independência leve a achar que ao abrir mão do meu nome e usar um outro…é anular a minha identidade. O que sou, quem sou e como sou. Apresentar-me como Liliana Pereira (por exemplo) em vez de Liliana Fernandes não é simplesmente estranho. É falso. Não sou eu. Se reajo mal quando não me colocam um dos meus nomes, adulterando-o totalmente…muito pior reagiria com um outro sobrenome. Não tenho por que carregar uma história que não é a minha. Porque a nossa história com o “tal” começa com a relação, união e quem poderá continuar a escrever as páginas da história que passa a ser “nossa” são os eventuais filhos. Usar o sobrenome de outra pessoa com quem escolhi simplesmente partilhar vivências, experiências, sentimentos, sentires, desejos… dita a intensidade do que sinto; que sou mais apaixonada por essa pessoa? E não adoptar: evidencia que gosto menos? Disparates… Para mim, trata-se de uma imposição (independentemente de qual dos lados), afirmação, autoridade e até controlo. O meu sobrenome é a minha história e deixar de usá-lo para me identificar é como se passasse a ser outra pessoa. Como se encerrasse um capítulo da vida em que a personagem principal assumiu outra identidade porque um outro personagem chegou para partilhar o protagonismo no palco da minha vida.

A noiva argumentou: «e a aliança, também é uma imposição?». Para mim é apenas um símbolo da união, nada mais. Contra mim falo. Não tê-la não mudaria em nada o quer que sentisse. Não é num anel que está espelhado o que sentimos, mas sim em gestos, companheirismo, atitudes, palavras, olhares, toques, cheiros… Para outros, a aliança é uma “tábua de salvação”, colocando nela toda e qualquer esperança de não haver espaço a outras relações. Vulgarmente chamado “pular a cerca” ou “facadinhas no matrimónio”. Puro engano. Ninguém está imune a isso. Basta sairmos de casa e falarmos com qualquer pessoa. Em qualquer local ou até mesmo no trabalho. Onde quer que se proporcione o intercâmbio de palavras, olhares, experiências. Não é um metal que dita a (não) envolvência com alguém, mas sim a consciência de cada um. O que cada um sente. Primeiro empatia, depois afinidade e depois… O mais provável é confirmar-se o que poderá marcar o fim de um casamento. Se o nosso coração estreme com a imagem de outra pessoa, o melhor é não arrastar a situação: por nós mesmos; pelo (a) companheiro (a) e pela terceira pessoa. Será sempre a(o) outra(o). Quanto mais se arrasta, pior é comunicar o quer que seja. A oportunidade de sermos felizes não anda sempre a espreitar. Um dia bate a outra porta e arrependemo-nos de não a termos alojado na nossa vida. Deixámos escapar por entre os dedos a oportunidade de sermos felizes e a vida é só uma. No caso de filhos, eles não vão agradecer por os pais terem sacrificado os seus sentimentos só porque eles existiam e eram pequenos (ou não). Eles crescem, trilham o seu próprio caminho, ensaiam as asas e um dia voam. E entretanto, olhamos para trás e percebemos que nos anulámos enquanto mulheres ou homens, enquanto pessoas que sentem e amam.

Nunca fui casada. Quem me conhece imagino que esteja a pensar «se não é casada como é que dá estes conselhos?». Não são conselhos. É apenas a minha postura na vida. O respeito por mim e pelo outro. Estas palavras são os olhos como vejo a vida. Como a (quero) viver. Encetar uma relação, construir a minha felicidade, subindo os degraus da infelicidade de outra pessoa, não se assemelha a uma sombra do que realmente pode ser a felicidade. Tal é sobreviver. E, antes de tudo, uma constante repressão de sentimento. Primeiro limpamos o que precisa ser resolvido. Depois é só deixarmo-nos guiar pela doçura da tranquilidade e pelo fervor da inquietação que é amarmos e sermos amados. Interpretar e traduzir cada descoberta, cada gesto, cada expressão diária, juntos, sempre com as mãos de ambos entrelaçadas em sentidos e sentimentos!

Já me alonguei por atalhos que em nada reforçam a ideia inicial deste texto. No fundo, a insistência ou imposição (da sociedade ou não) para se adoptar o sobrenome do marido é, no meu ponto de vista, um grito de machismo. Aqui, vê-se o quão longe do direito de igualdade as pessoas estão na prática. O que parece ser comum e normal deve ser motivo de reflexão porque tal é a submissão da condição de mulher que ainda se faz sentir, podendo emergir no seio daquele que pode ou deve ser o momento mágico de uma história a dois: o casamento.

…gosto de ti, mas cada um mantém o seu nome, pode ser?


4 Responses to “Uso o teu…queres o meu?”

  1. 1 Velha Guarda

    Bem, se nunca foi casada, terá dificuldade em compreender o prazer que eu e a minha mulher, casados por volta dos 50 anos de idade, tiramos do facto de termos cada um adoptado o nome do outro, criando um nome composto único e comum.
    É como a aliança, uma espécie de declaração permanente de amor…
    Claro que nos nossos primeiros casamentos não tínhamos feito nada disto! Mas a idade traz sabedoria…

  2. 2 O nosso nome, a nossa verdade

    Que artigo longo… e tão interessante… dava uma longa conversa entre nós.

    Mas aos leitores assíduos do teu blog eu só quero partilhar uma coisa: a importância do nosso nome, da nossa verdade.

    As primeiras actividades com os meninos que chegam às escolas do 1º ano do 1º ciclo estão relacionadas com os nomes. Segundo as orientações curriculares, quero que os meus alunos saibam escrever o nome, saibam o nome completo, bem como o nome dos colegas. Para quê? Para que comecem a construir a sua identidade e a identidade do grupo.

    Ora, mais tarde quando as pessoas se querem casar e seguir as tradições sem se quer as questionar, mudam o nome e estão também a perder a sua identidade.

    Reflectir e mudar as tradições está nas nossas mãos. Há coisas que sinceramente me fazem muita confusão:

    - a mulher muda o nome quando se casa
    - tem de ser o rapaz que pede a rapariga em casamento
    - a rapariga tem de oferecer uma prenda de noivado depois do pedido…

    Eu não sei… mas parece-me que há várias maneiras de viver o amor, de demonstrar sentimentos, de partilhar vivências.

    Ficar com o nome do meu marido sem ele ficar com o meu nome não me parece de todo que estejamos a construir uma identidade do nosso amor, nem a torná-lo mais verdadeiro. Mas se, quem o faz, assume que o faz porque quer dar isso ao outro, está a ceder, está a cumprir uma tradição porque isso lhe faz muito sentido para si e para o marido… quem sou eu…

    A idade traz, sem dúvida, sabedoria, mas só se pensarmos sobre a verdade das coisas, da nossa vida e dos nossos sentimentos. Muitas vezes não é o que acontece com os inúmeros jovens que seguem tradições por si só… sem pensar.

  3. 3 Aline

    Ora… pior do que a adoção do nome do outro é o próprio casamento burocrático!
    Assinar papéis, definir divisão de bens, casar de véu e grinalda (moça virgem antigamente não casava de branco!!! NUOSSA!)… e qdo não casa? Fica mal falada…
    Ainda temos isso presente… para muitos juntar é feio, mostra família desequilibrada logo já de início!
    Ai ai… que sistema louco que vivemos, que imposições bestas, pequenas demais para mim!!!

    E se amor é isso… eu não o possuo! :)
    Valeu pelo texto…

  4. 4 Pessoa

    Concordo 100% com tudo o que foi escrito!

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