Passei por lá e vi

No passado fim-de-semana rumei até ao Sul. No Sábado à noite (perto da meia-noite) passeava na zona ribeirinha de Portimão, quando vi a tenda onde está a decorrer a exposição da World Press Photo. Sugeri à minha companhia que entrássemos. Alertou-me pelo avanço das horas, mas como estavam pessoas a entrar, arriscámos.

Para quem desconhece, a World Press Photo não é uma mera exposição de fotografias. Pelo contrário, trata-se da mais importante e prestigiada exposição de Fotojornalismo do Mundo. No ano passado, participaram mais de quatro mil fotógrafos de 122 países e mais de 80 000 imagens.
Este ano, o prémio foi para a Agência Reuters, pela “lente” do fotógrafo Finbarr O’Reilly. Com a minúcia que este trabalho exige, O’Reilly ganhou o galardão com uma imagem tocante. A objectiva captou o momento em que os dedos magros e notoriamente envelhecidos de uma criança de um ano tocam os lábios da mãe, num centro de emergência alimentar, em Tahoua, no Noroeste do Níger, em Agosto do ano transacto. O momento foi segurado pela objectiva e retrata uma das realidades daquele país africano: a fome. A foto foi retirada num período de grave seca e após uma praga de gafanhotos ter atormentado aquele país.
Apesar deste ter sido o trabalho premiado, a exposição conta com outras tantas fotografias singulares. A maioria retrata a violência, a fome, a guerra, a morte e todo o género de desastres naturais que espalham o caos, como por exemplo os terramotos. Choque, repulsa são os sentimentos generalizados por quem passa pela World Press Photo. Muitas das fotografias expostas captam de tal forma os pormenores (até os mais repugnantes), que nem equacionamos a hipótese daquelas pessoas nunca terem conhecido outra forma de vida, que não fosse em ambiente de guerra. Detalhes, particularidades, que (nos) escapam nas notícias diárias e parecem estar mesmo ao nosso lado, à distância de um olhar. Ainda que não seja literalmente assim, o certo é que tudo acontece a um ritmo avassalador, com a nossa conivência. Afinal, o Mundo somos todos nós.
Para quem estiver ou passar por terras mouras, aqui fica uma sugestão: visitar a World Press Photo até dia 30 de Julho do corrente mês. Todavia, fica a advertência: vão preparados para encontrar o que nem no vosso imaginário entra. As imagens falam efectivamente por si, mas chocam, revoltam, agitam até os que se consideram insensíveis e indiferentes.
Parece uma frase feita, mas infelizmente, nestas ocasiões, é que nos apercebemos o quão sortudos somos, desvalorizando diariamente o que conquistamos e o que nos é dado. Que nunca façamos parte desta exposição como protagonistas. Que continuemos espectadores atentos à realidade que nos rodeia a cada dia que passa, que invade os nossos ecrãs, as páginas dos jornais e que nos envergonhemos por fazer parte de um Mundo, que ignora os Direitos Humanos e os Direitos das Crianças. Estas são vítimas da crueldade daquele que tem real obrigação em destrinçar o bem do mal: o Homem. Somos um animal estúpido, cruel e mesquinho. O que nos distingue dos restantes animais é a racionalidade. Pelo menos, cremos nisso. Porém, não a utilizamos. Olvidamo-la, dessabemo-la, continuando a agir como irracionais. Como se desconhecessemos as consequências dos nossos actos bárbaros. Enveredamos pelo caminho mais fácil: a guerra. Agimos como selvagens, verdadeiros energúmenos. Nós é que somos os animais, na verdadeira acepção da palavra.
Está nas minhas e nas vossas mãos mudar a história. O rumo da história. Cabe a nós escrever o próximo capítulo, noticiando os passos para a conquista de um Mundo melhor. De um Mundo, onde o Homem em vez de ser o autor das maiores atrocidades, é o responsável pelo sorriso no rosto daqueles que já foram o espelho e o reflexo dos actos selváticos do ser humano. Esperemos que, um dia (não muito longínquo), a foto vencedora seja o sorriso rasgado num qualquer rosto e represente a felicidade.
De certo, seria do gosto de todos nós.



3 Responses to “Passei por lá e vi”

  1. 1 Anonymous

    Very pretty design! Keep up the good work. Thanks.
    »

  2. 2 Anonymous

    Your are Excellent. And so is your site! Keep up the good work. Bookmarked.
    »

  3. 3 Anonymous

    “Se os homens fossem bondosos, verdadeiros, afáveis, íntegros e sagazes…Então teríamos o paraíso na humanidade…” Confúcio

    Pouco dás quando dás algum dos teus bens; é ao dares algo de ti mesmo que verdadeiramente dás.

    Há circunstâncias na vida em que a dignidade humana pode exigir grandes sacrifícios, isto é, heroísmo. Ninguém tem autoridade moral para exigir de outro um comportamento heróico. Cada um de nós tem essa obrigação, não porque outros lho peçam ou censurem se o não fizer, mas porque as próprias coisas lho pedem; pede-o sobretudo a dignidade humana.

    Todos os dragões da nossa vida são talvez princesas que esperam ver-nos um dia belos e corajosos. Todas as coisas aterradoras não são mais, talvez, do que coisas indefesas que esperam que as socorramos.
    (Rilke)
    Continua o bom trabalho. Paulo Santos

Leave a Reply