Bem…a minha estupefacção é tal que as ideias passam a uma velocidade estonteante, sob pena de não serem totalmente reproduzidas. Como diz o povo: “o melhor é começar pelo início”. É o que farei.

Penso que é de conhecimento geral que o Zimbabwe foi nomeado para dirigir a Comissão da ONU para o Desenvolvimento Sustentável. Aqui, começa a minha primeira dúvida: trata-se de um país onde a maioria da população partilha o sentimento de angústia por não ter com que e como se alimentar. Todavia, foi escolhido para “vestir aquela camisola” por vontade e gosto das demais nações africanas e contra-gosto das chancelarias ocidentais. Estas manifestaram as objecções a que o bloco africano fosse representado por um regime que em nada é exemplo do respeito pelos direitos humanos, sendo o principal violador desta “cartilha”. Parece-me razoável.

Deste modo, Francis Nheme, Ministro do Ambiente e do Turismo daquele país, assume a presidência daquela comissão, constituída por 53 elementos. Todavia, conta com três adjuntos, sendo: um guatemalteco, um iraniano e um israelita. Note-se, para desempenhar funções num mandato durante o qual o enfoque são os temas que incluem a agricultura, o desenvolvimento rural, a terra e a desertificação.

De relembrar, também, que o desrespeito de Zimbabwe pelos direitos humanos tem sido um obstáculo - senão o principal - na rota da concretização da próxima cimeira, a ter lugar na capital portuguesa, entre a UE e os países africanos, uma vez que grande parte dos dirigentes dos Vinte e Sete recusa-se a sentar à mesa com o Presidente Robert Mugabe, “somente” considerado como um dos piores “fantoches” que o Terceiro Mundo conheceu até então.

Porém, Boniface Chidyausiku, embaixador de Zimbabwe nas Nações Unidas, declarou à BBC que nada impede que Harare se responsabilize por uma das comissões da ONU. A justificação é que era escusada, perdendo uma excelente oportunidade de estar calado: «Mas o que é que o desenvolvimento sustentável tem a ver com direitos humanos?».

Questiono: para Boniface Chidyausiku não é por si só um entrave que o seu país esteja com uma inflação de 2 000 por cento, que a produção de cereais seja escassa e que um terço dos enfermeiros tenha abandonado o país, optando maioritariamente pelo Reino Unido? Uma questão que Mugabe desculpa-se como sendo uma sequência das sanções que a UE e os EUA impuseram àquele país, por terem discordado do seu estilo de governação. Para ele, esta é a razão para o buraco em que está a economia do país.

Em suma, a escolha foi o resultado de uma votação secreta - por 26 votos a 21 - com três abstenções. No momento em que foi conhecido o nome do país que assumiria aquela “pasta” os poucos aplausos que se fizeram ouvir, falaram per si. O próprio Vice-porta-voz do Departamento de Estado fez saber que não concordava que Zimbabwe reunisse as mínimas condições para tamanha responsabilidade, mas a maioria dos países africanos revelou solidariedade para com aquele que comanda a antiga Rodésia, desde 1980.

Mas nem tudo são maravilhas. O novo presidente da Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável - Francis Nheme -  está proibido de pisar na UE, «por pertencer a um Governo, cujo balanço é verdadeiramente castratófico. No Zimbabwe há pelo menos 14 mil pessoas a morrer mensalmente por falta de comida ou de medicamentos e contam-se 1,3 milhões de órfãos, designadamente devido à Sida».

Por seu turno, o Embaixador Chidyausiku, desculpou-se, dizendo «Estão a fazer uma tempestade num copo de água». Para ele, o que é relevante é que o grupo de países africanos representado na comissão - ao qual cabia agora a presidência, antes exercida pelo Qatar - decidiu fazer-se representar por Harare. Aos que discordam - europeus e norte-americanos - nada mais restará que não seja adoptar a decisão.

Enfim…expliquei, expliquei e continuo sem perceber como é que o Embaixador alega que o desenvolvimento não tem a ver com direitos humanos! Desculpem? Não percebi!

É contra-gosto que fico com a minha “curiosidade” insatisfeita. Alguém arrisca?


0 Responses to “Desculpem? Não percebi!”

  1. No Comments

Leave a Reply