Acima de tudo porque sou mulher. Acima de tudo porque digo “não” à incoerência. Acima de tudo porque não podia e não queria fechar os olhos à ofensa que o Estado português está a exercer sobre as mulheres.
Desde o passado dia 15 de Janeiro que as farmácias abriram as portas à mais recente vacina: contra o cancro do colo do útero. Até aqui tudo bem, não fosse o que ela acarreta. Esta vacina que poderá evitar que continuem a morrer anualmente cerca de 300 mulheres, em Portugal, vítimas deste flagelo, custa a “módica” quantia de 480 euros. Uma renda! Afinal, do que protege esta vacina? De infecções várias no colo do útero pelos tipos 6, 11, 16 e 18 do Papilomavírus Humano (HPV), que provocam lesões cervicais, vaginais, entre outras. Estas infecções podem resultar num cancro. Termo estranho, não? Apesar da complexidade do nome, o significado que encerra é simples - é comum entre as doenças sexualmente transmissíveis.
A vacina em questão deve ser administrada em crianças e adolescentes, cujas idades variam entre os nove e os 15 anos, bem como a mulheres dos entre os 16 e 26 anos. Por isso, para se prevenir, deixe de pagar a renda, despesas fixas e básicas . Ainda por cima se houver mais do que uma mulher e/ou filha numa casa. Exagero? Ainda assim, pincelei a realidade, pois esta vacina não faz parte (para já) do plano nacional de vacinação (PNV) e engloba três fases. Cada uma delas custa 160 euros. Em suma, mais uma medida que o Estado não comparticipa (a ver vamos), mas orgulha-se de dizer que é o 12º país na corrida de vendas. Todavia, se o Estado português assumisse a despesa, «o custo poderia chegar aos 442 milhões de euros, tendo em conta que há, segundo elementos estatísticos da Direcção-Geral de Saúde, 922 mil jovens com idades entre os dez e os 24 anos».
O que pretendo dizer é que uma das doenças que mais mata mulheres em todo o Mundo pode ser prevenida, apenas por alguns bolsos. Ou seja, o acesso generalizado fica refém do elevado valor desta vacina preventiva. E quem poderá suportar tamanha despesa? De certo, os mesmos bolsos que se deslocam onde podem (fora de Portugal) para fazer um aborto!
Se se diz o que está menos bem, também se louva a iniciativa do laboratório que vende esta vacina, pois já efectuou um pedido de comparticipação ao Estado, cabendo a decisão final ao Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed).
Resta-nos aguardar por uma posição favorável, pois inserir esta vacina no PNV não é jogar dinheiro à rua. Pelo contrário: o cancro do colo do útero faz com que Portugal seja um dos pioneiros com maior incidência desta doença, na UE, perdendo, como já referido, cerca de 300 mulheres anualmente. Por isso, custear esta vacina é uma obrigação, é imperativo. Este género de cancro não apresenta sintomas até à última fase. Deste modo, com a principal prevenção é possível reduzir até 70 por cento a incidência deste malefício. Questiono: todas as vacinas abrangidas pelo PNV têm igual ou maior impacto que o cancro do colo do útero na saúde pública? Não seria uma forma de reduzir os gastos de saúde, sendo um investimento plausível? Mais do que isso: um investimento ganho?
Esperemos que a Direcção-Geral de Saúde analise a situação e apresente uma proposta persuasiva ao Ministro da Saúde. Que este esqueça que é Ministro e olhe para quem ganha, por exemplo, o ordenado mínimo.
Numa altura em que se fala tanto - argumento do “não” à despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas - do apelo e necessidade do aumento da natalidade, não deveria olhar-se para esta questão de um outro ângulo? Com mulheres a morrer vítimas de cancro do colo do útero e com tantas outras com acesso vedado à prevenção, que estratégia apresenta o Estado para o incentivo do crescimento da natalidade?
Não se trata de gosto e contra-gosto, mas sim de coerência!



3 Responses to “Prevenção só para alguns bolsos”

  1. 1 Anonymous

    A incongruência do estado, passa pelo cumulo do desprezo humano, desta feita pela total ausência do Valor imenso das Mulheres!!! não existe dinheiro q pague o bem estar dos cidadãos! neste caso a solução é possivel, é execuivel e devem ser prestadas condignamente e humanamente a todas as Mulheres. APBSS

  1. 1 Boa intenção é ilegal! at Gosto e contra-gosto
  2. 2 Porreiro, pá! at Gosto e contragosto

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