“Ressuscitou”…40 anos depois
Publicado por Liliana Fernandes a 28 Março 2007 em Está bonito e leva jeito.No passado Domingo, chegou ao final o programa Os Grandes Portugueses, emitido pelo canal público. Nunca vi o dito programa, apresentado por Maria Elisa. A temática, em si, não me suscitou curiosidade. Num país que parece viver em plena letargia e a atravessar uma das fases mais dramáticas, achei que Os Grandes Portugueses não tinha outro propósito que não fosse entreter os portugueses e desviá-los do que realmente importa. Terei perdido grande coisa? Correndo o risco de estar a ser injusta por falar de algo que não vi, ainda assim não me desvio da rota: nunca percebi o cerne do programa. Eleger o melhor português…mas com base em que critérios? Porquê? Qual a improtância? Iria essa pessoa resolver a situação em que Portugal está metido?
Aqui e ali vou ouvindo e lendo comentários a propósito do programa. Apercebi-me que levaram a votos pessoas tão díspares, como a época que protagonizaram. Puro antagonismo. Que critério de comparação pode existir entre um D. Afonso Henriques e um Luís de Camões, por exemplo? O que vejo em comum é a nacionalidade. Viveram em épocas distintas, deram vida a áreas opostas. Assumiram funções incomparáveis. E entre Álvaro Cunhal e Fernando Pessoa? Seria por partilharem o gosto e talento pela escrita? Um assinava com diversos nomes, outro optou apenas por um. Será, também esta, um possível paralelismo?
Quanto a mim, o programa “pecou” por colocar no mesmo saco personalidades tão distintas. Cada uma foi o que foi e fez o que fez, de acordo com a época em que estava inserido. Viveram sociedades diferentes, com estruturas socio-económicas completamente distintas. Pólos opostos.
Mas qual não foi o meu espanto, quando soube que a vitória recaiu sobre quem já não pode saboreá-la: António de Oliveira Salazar. Ainda por cima, ironia das ironias, ganhou através de um canal estatal. Transmitiu-me a sensação de que o ditador ressuscitou e com ele o regime abolido há mais de três décadas. Estavam a voto, nove séculos da nossa História. Ganhou a do passado. Quem viu o programa, diz que a apresentadora ficou “constrangida”. Odete Santos, que defendia Cunhal, recordou que «a apologia dos fascismo é proibida pela Constituição. Este programa resulta no branqueamento do fascismo», TV Mais desta semana.
Decorridos tantos anos, Salazar arrecadou os votos de 210 mil pessoas. Terão sido os seus conterrâneos a votar vezes sem conta? Na minha opinião, o resultado vai mais além. A expressão do voto grita “protesto”. Esta é a palavra de ordem. Os portugueses estão descontentes com o presente, embora na hora de votar “a sério” os partidos PS e PSD reúnam, sempre, mais de 70 por cento do eleitorado. Na hora de mudar, os portgueses amedrontam-se. Somos um povo mesquinho, que não dá voz à minoria. Acobardomo-nos, por acharmos que votar bem, é votar na maioria.
Se pudesse, colocaria como música de fundo neste artigo, o célebre tema “Ó tempo volta p’ra trás/ Dá-me tudo o que eu perdi…”. Esquecemo-nos depressa das coisas más e nunca recordamos as boas. A votação deveria ter sido entre Salazar e Sócrates, porque a nível de actuação…não sei qual será o pior português. Sem dúvida que Salazar tomou decisões acertadas. Também é verdade que o desemprego era mínimo e havia um “pacote” alimentar a que todos tinham acesso: desde ricos a pobres. Mas a liberdade do 25 de Abril não foi bem aproveitada e, por isso, estamos como estamos. As pessoas abusaram da liberdade. Não a usaram como deveriam. Sócrates, por seu turno, conseguiu em excesso o que antes era escasso: o desemprego. Antónimo de Salazar…em alguns aspectos.
A votação exprime o contra-gosto dos portugueses pelo actual Governo!
Apos o voto citado, chega o aniversário da morte do dictador e, com ele muitos lusófonos choram o passado! Esquecem a aridez da vida no tempo do dictador; a opressão, as guerras coloniais; omitem o facto do nosso país ter feito parte dos mais atrasados da Europa… Apagaram a visão das prisões carregadas de inocentes, as memórias tornam-se curtas! Que transmissão se fará às gerações vindouras? No que se refere às dificuldades presentes, será necessário que todos sejamos actores responsáveis e participativos da nossa sociedade! Pôr em causa os governos, as instituições que ultrapassam os direitos constitucionais, que não cumprem a seguranca do povo e do país.